Voltar mais de meio bilhão de anos no tempo pode parecer impossível, mas foi exatamente isso que a ciência conseguiu fazer. Em uma pedreira isolada na província de Hunan, no sul da China, pesquisadores descobriram um verdadeiro tesouro que está mudando o que sabemos sobre a origem da vida complexa na Terra. O local, batizado de Biota de Huayuan, revelou mais de 50 mil fósseis com cerca de 512 milhões de anos, datados do Período Cambriano, logo após a primeira grande extinção em massa do planeta. O dado mais surpreendente? Quase 60% das espécies encontradas nunca haviam sido registradas pela ciência.
Esse achado vai muito além de fósseis antigos. Ele oferece um retrato detalhado de um ecossistema marinho que prosperou nas profundezas do oceano logo após o Evento Sinsk, uma catástrofe global que devastou a vida complexa há cerca de 513 milhões de anos. Enquanto os mares rasos sofreram duramente, as águas profundas funcionaram como um verdadeiro refúgio, permitindo que a vida sobrevivesse, se reorganizasse e evoluísse de formas surpreendentes.
A pesquisa foi conduzida ao longo de cinco anos por cientistas do Instituto de Geologia e Paleontologia de Nanjing, da Academia Chinesa de Ciências. Ao todo, 8.681 fósseis foram analisados, revelando 153 espécies pertencentes a 16 grupos filéticos diferentes. Entre elas estão artrópodes predadores com garras afiadas, ancestrais de vermes, esponjas, águas-vivas e muitas outras criaturas marinhas. O nível de preservação impressiona: alguns fósseis mantêm brânquias, intestinos, olhos e até estruturas nervosas.
Um dos destaques é um artrópode marinho do Cambriano conhecido como Fuxianhuiid, encontrado com o intestino completamente preservado. Esse detalhe raro ajuda os cientistas a entender como esses animais se alimentavam e sobreviviam em um mundo que ainda se recuperava de uma extinção em massa. A Biota de Huayuan já é comparada ao famoso Xisto de Burgess, no Canadá, e pode até superá-lo em importância, justamente por registrar com precisão o momento da recuperação da vida após um colapso global.
“Muitos fósseis mostram partes moles, incluindo brânquias, intestinos, olhos e até nervos”, explica o paleontólogo Han Jian, um dos líderes do estudo. É a resiliência da vida registrada em pedra.
O impacto dessa descoberta ultrapassa os limites da paleontologia. Ela ajuda a compreender como os ecossistemas marinhos se reconstruíram após a Explosão Cambriana, considerada o “Big Bang” da vida animal, e traz reflexões importantes sobre como a biodiversidade reage a eventos extremos — um tema especialmente relevante em um mundo que enfrenta mudanças climáticas aceleradas. Publicado na revista Nature, o estudo reforça o papel das águas profundas como verdadeiros “abrigos” naturais da biodiversidade.
Mais do que um avanço científico, essa descoberta é uma viagem fascinante ao passado mais remoto da Terra. E tudo indica que esses fósseis ainda têm muitas histórias para contar. O passado, ao que tudo indica, continua mais vivo do que nunca.